: [ A bibliotecária de Auschwitz ] de António G. Iturbe



Demorei muito tempo a ler este livro. Ou era porque estava sempre cansada, porque não tinha tempo ou porque simplesmente não me apetecia. Mas a verdade é que este período sem internet me ajudou a regressar aos trilhos da leitura. Em menos de dois dias acabei este livro e comecei outro. Há males que vêem por bem!

Gostava de conseguir descrever-vos este livro em poucas palavras mas as mais de trezentas páginas cheias de história e sentimentos não me permitem. Porque não há poucas palavras que descrevam a dor e o medo que os internados sentiam nos campos de concentração. Não há poucas palavras que descrevam o que este livro nos faz sentir a nós, que estamos tão longe de entender o que foi o holocausto. Podemos ler, estudar, compreender. Mas nunca poderemos sentir. Ainda assim este livro fez-me sentir. Fez-me ir para o meio do lodo, nas intermináveis chamadas. Fez-me estar no bloco 31 durante as aulas, enquanto as crianças riam à minha volta alheias ao terror que se passava nas câmaras de gás a poucos quilómetros delas. 

O coração apertou-se com as injustiças e com as decisões que foram tomadas precipitadas pelo final da guerra. Mais do que um livro, esta obra foi uma viagem. Viajei nas palavras de Iturbe para a vida de Ditinka Kraus e de todos aqueles que se cruzaram com ele. E, apesar de todo o negrume, foi uma viagem que gostei de fazer. Para me abrir os olhos para os pequenos pormenores aos quais só damos valor em tempos de aflição. Para me mostrar que desistir não é uma escolha que possa estar disponível. Para me dar a conhecer mais uma grande mulher que nunca será mencionada nos manuais de história.

Acima de tudo [e não me interpretem mal] este livro aumentou a minha vontade de visitar Auschwitz. Se já tinha curiosidade de pisar aquele local mortífero, por questões histórias, agora tenho vontade de o percorrer por uma questão pessoal. Porque tudo aquilo que li fará sentido assim que eu vir o espaço que envolveu toda a história. Porque me fará sentir com mais intensidade tudo o que eu ler depois.

Devaneios à parte deixo-vos de seguida alguns dos excertos que me chamaram mais à atenção:



«E a verdade é que mergulhar nas suas páginas a faz sentir como se estivesse de novo na escola de Praga e, quando erguesse o olhar, fosse ver a ardósia verde e a professora com as mãos sujas de giz.» (pág. 121)

«No fim, H.G. Wells tinha razão e existe na verdade uma máquina do tempo. São os livros.» (pág. 123)

«É tudo muito confuso, mas ao fechar os olhos acode-lhe ao espírito uma imagem que vai arquivar nas fotos mais preciosas de Auschwitz: ela e Margit estateladas na neve, René a olhar e as três a rir à gargalhada. Enquanto continuarem a rir, nada estará perdido.» (pág. 130)

«Contou a Hirsch que as crianças se agarravam às pernas dela, que fingiam dores e doenças, mas do que precisavam não era de remédios e sim afecto, protecção, amparo, um abraço que lhes acalmasse o medo.» (pág. 163)

«O melhor de tudo é que os vê felizes porque ainda são jovens e fortes e o futuro não morreu.» (pág. 179)

«Os que partem não sofrem, sussurra-lhe uma e outra vez ao ouvido, como um bálsamo que é preciso aplicar várias vezes sobre a ferida para que não doa.» (pág. 183)

«Enquanto corre com o tesouro branco em busca da mãe para fazerem um banquete, Dita pensa que aquela lição de línguas a acompanhará para o resto dos seus dias: em polaco, um ovo é um yayko. As palavras têm a sua importância.» (pág. 314)

«- Não sejas ingénua, Margit. No inferno já nós estamos.» (pág. 323)

Muitas outras citações poderia deixar-vos aqui mas para quê desvendar todo o livro se vocês poderão ter o prazer de o ler?

Comentários

  1. Tenho que ler este livro!
    É daqueles períodos que mexe connosco e que nos faz querer saber sempre mais. Claro que, como tu disseste e bem, estamos longe de entender tudo aquilo que se passou por mais que nos informemos, mas vale a pena conhecer as obras que nos fazem sentir um bocadinho mais perto dessa realidade.

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  2. É o tipo de história que não me apetece ler. As histórias sobre o Holocausto, são histórias de horror que me deixam sempre com um misto de tristeza e revolta, por não ser possível rebobinar a cassete do tempo e apagar essa parte da história da (des)humanidade.
    Ao mesmo tempo aproveitava para meter os responsáveis num forno, a assar em fogo muiiito lento. :/

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  3. Ainda ontem na fnac passei por este livro e o título despertou a minha atenção. Depois de ter lido a sinopse fiquei com uma enorme vontade de o trazer para casa, mas não fui preparada para comprar livros...
    E sim, correu muito melhor depois de ter ouvido aquilo, estava mesmo a precisar! :)

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  4. Fiquei curiosa em relação ao livro...

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