sábado, maio 2

: Ontem (re)viveste em mim.

[Açude da Agolada - 01.Maio.2015]

Há anos que queria voltar aquele açude que preenche grande parte dos meus filmes de infância e que ficou imortalizado em muitas das fotografias que eu mais adoro. Queria recordar a minha tão querida praia dos picos, da qual nunca me lembrava do nome real. Todos me davam o desconto - afinal de contas era uma criança - e o nome acabou por pegar. Ontem voltei lá e, sabes avó, fiquei desiludida. Aquela já não é a mesma praia onde te rias com as minhas brincadeiras. Já não é a mesma praia onde o Rui adormecia enrolado em toalhas e onde nos vias a brincar dentro de água. Já não é a mesma praia onde me guardavas um lugar ao teu lado e para onde eu corria, feliz. Está abandonada e eu fiquei triste. Esperava encontrar famílias por lá mas apenas o vazio me respondeu. Ocasionalmente um peixe saltava na água e eu lembrei-me de quando olhava para a água para não deixar escapar nenhum salto que, já na altura, eles davam. Estar sozinha ali fez-me reviver a dor de te perder. Novamente aquele vazio, aquele silêncio. Esperava ouvir sons de risos, sentir o cheiro a comida no ar. Mas, em vez disso, apenas os pássaros me faziam companhia. E, claro, os peixes. Ainda assim recordei os tempos passados por lá e a quantidade de vezes que me picava nas samas que caíam dos pinheiros, agora ainda mais altos do que já eram. Esperava sentir-te ao chegar à praia mas fizeram-me uma rasteira. Foi preciso fechar os olhos e respirar fundo para te encontrar novamente, como se estivesses sentada numa das muitas mesas à minha espera. O cabelo branco, os olhos escuros, as rugas na cara. E eu sorri-te. Toda a paisagem se alterou e eu tinha novamente seis anos, com o cabelo entrançado e um sorriso desdentado. Ainda me custa pensar em ti, mesmo após estes anos todos. Eu própria digo que o tempo cura tudo mas, quando se perde alguém, o tempo só aumenta as saudades. E eu morro de saudades tuas. Talvez por isso tenha necessidade de te fazer viver através da minhas memórias. Porque a verdade é que em tudo o que faço tu estás presente. E, assim, estarás sempre viva.

Ah... sabes avó, agora já nunca me esqueço de como se chama a praia. Mas, por ti, nunca irei chamá-la pelo seu nome verdadeiro. Sei que gostarias que eu mantivesse aquela criança viva nem que fosse num espaço pequeno de mim. Praia dos picos um dia foi, praia dos picos sempre será.

9 comentários:

  1. Custa tanto quando regressamos a locais que nos são importantes e já não os reconhecemos, é como se se perdesse uma parte da nossa identidade. Mas as memórias, essas, ficarão para sempre!

    ResponderEliminar
  2. A saudade de alguém que não volta só cresce, por vezes amenizada mas quando dá-mos conta já está noutro ní
    vel...
    Há lugares que deveriam ficar imortalizados não só em fotografias, este por exemplo... Parece-me ser um lugar de calma, para se aproveitar um bom dia. É mesmo pena que sejam abandonados.

    Um beijinho enorme

    ResponderEliminar
  3. Oh obrigada mesmo! Eu irei continuar a ler-te também! :)

    ResponderEliminar
  4. Antes demais, no domingo, vais receber um e-mail para aceitares o pedido de ler o meu blogue! Assim já sabes! :)

    ResponderEliminar
  5. r: Essa série também nunca me puxou muito... Já andava a olhar para ela à cerca de 1 mês, mas nada me dizia vai ver que vais amar... até um dia. Devorei a série em cerca de 3 dias :p A série é muito fixe, aconselho-te muito a veres! O primeiro episódio não desenvolve muito, mas os episódios a seguir são muito fixes.

    ResponderEliminar
  6. r: Oh, muito obrigada, a sério! Já tinha visto os comentários que deixaste na entrevista, e fiquei toda feliz com as tuas palavras! É bom ver pessoas ligeiramente mais velhas e com relações mais maduras a falar bem da nossa relação... dá-me ainda mais esperança para o futuro! *.* E sim, a tatuagem tem um L e um G xb

    ResponderEliminar
  7. Tu fizeste-me ir as lágrimas, chorei com o que escreveste.
    Sabes custa bastante quando voltamos novamente a um local da nossa infância e falta algo ou alguém, é triste e arrebatador ao mesmo tempo.
    Custa bastante, quando vemos alguém partir de quem gostamos muito, é uma dor que nunca se esquece.
    Deves sempre manter as boas memórias e recordações vivas, deve sempre fazer-se isso. Já agora praia dos picos, é sempre a praia dos picos, espero que continue assim a ser.
    Beijos.
    http://coisinhasdamiia.blogspot.pt/?m=1

    ResponderEliminar
  8. Até eu fiquei cheio de saudades... as saudades são contagiantes.
    Açude da Agolada... quase a chegar a Coruche. Nunca lá fui. Quando gostava de pescarias, ia muitas vezes para a Barragem de Magos. :) Agora parece que está contaminada pela pecuária...

    ResponderEliminar
  9. Que palavras bonitas mas ao mesmo tempo tristes... Sei que ela vai ficar feliz, onde quer que esteja, por continuares a chamar praia dos picos e vai sorrir de alguma maneira sempre que tu assim chamares a praia :)

    ResponderEliminar

À noite gosto de contar as estrelas que estão no céu e de ver por onde anda a Lua. E tu do que gostas?