: Recados à Helena [4]

Vista da serra em Vila Nova do Ceira - 2010

Helena, mesmo não sendo romântica gosto de romantizar as primeiras vezes. Provavelmente isto é confuso para ti mas, quando chegares a uma certa idade em que tentas recuperar o sentido da vida, irás agarrar-te aos sentimentos que te enchem o coração. Mesmo que esses sentimentos estejam no passado. Gosto de recordar as primeiras vezes, até lhes perder a conta, como quem vive de novo aquele momento que nos arrepiou a alma. Macaquinha, não falo daquelas alturas em que ficamos com pele de galinha. Falo daquelas alturas em que as palavras não conseguem descrever aquilo que sentimos. E uma das que mais recordo foi a minha primeira grande viagem, sozinha. Tinha dezoito anos há poucos meses e decidi inscrever-me num curso que iria decorrer nas férias da Páscoa. Para isso foi preciso ir até Coimbra e depois até uma aldeia chamada Vila Nova do Ceira. Fiz o percurso até Coimbra de comboio e depois de autocarro até perto da aldeia. Nunca antes, na minha curta vida, me tinha sentido tão livre como no dia em que entrei no intercidades e ele arrancou, deixando a tua avó na plataforma. Naquele momento passei a depender só de mim e tudo fiz para usufruir daquele momento ao máximo. Acredita, meu amor, as melhores viagens são feitas de comboio. Aquele embalo suave que os carris nos proporcionam; as paisagens que nos pintam os olhos; as localidades que vemos passar. Naquela viagem sonhei. Apaixonei-me por Coimbra assim que lá pousei os pés. Perdi-me ao procurar a paragem do autocarro e, graças a isso, encontrei o único vestido de noiva que gostaria de usar. Passei a melhor semana da minha vida. Nessa semana percebi que a maturidade que eu já julgava ter era real. Existia. Já pertencia ao meu ser. E, por tudo isso, vou querer que também tu faças uma destas viagens. Não me peças que te deixe ir para aquelas viagens de finalistas que têm tudo para correr mal. Quando tiveres idade suficiente deixar-te-ei viajar com os teus amigos. Uma viagem dentro das nossas fronteiras, neste país que tão belo é. Irei deixar-te entrar no comboio e ficarei a vê-lo afastar. Irei dar-te o mesmo espaço que me deram para descobrir o mundo; Descobrir-me a mim. Irás descobrir-te e voltar mais segura de ti. E, acredita em mim, depois disto nunca mais deixarás de querer viajar. Não desesperes: um dia chegará o teu dia.

Comentários

  1. Já me fizeram um comentário com o link para o blogilates :b E quanto ao Insanity, foi o tal que eu vi mas que tinha de ter os DVD's :s

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  2. Que dóceis palavras *.* e que grandes verdades dizem! Nunca fiz uma viagem dessas, a minha mãe sempre me prendeu demasiado. Até mesmo quando quis ir de ERASMUS ela não me apoiou por isso eu desisti da ideia. Na altura ainda era fraca, ainda deixava que as pessoas me manipulassem e fizessem chantagens emocionais comigo, baaah! Mas ao menos com isso aprendi que no dia em que tiver um filho não lhe farei o mesmo

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  3. Vou-me repetir, sei bem, mas fico sempre encantada com estes recadinhos, porque as palavras estão carregadas de ternura e de amor *.*
    Nunca fiz uma viagem assim, sozinha, mas adoro Coimbra!

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  4. Adorei o texto. Concordo contigo as melhores viagens são nas nossas fronteiras!

    Bjxxx

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  5. Que texto lindo =) Também gosto de andar de comboio, mas prefiro sempre as viagens de carro!

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  6. simplesmente fantástico este texto, soberbo! fabulosas palavras, fiquei preso da primeira à última. adorei :D

    http://ummarderecordacoes.blogs.sapo.pt/

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