segunda-feira, setembro 7

: Tenho o coração apertado.


Há mais de vinte anos atrás foi diagnosticada hiperatividade a um primo meu - na altura com dois anos - numa época em que esta palavra ainda era um bicho e não era usada para caracterizar a vivacidade que qualquer criança tem naturalmente. Cresci ao lado dele, visto que convivemos diariamente durante vários anos, e aprendi a compreende-lo. Eu era das poucas pessoas que conseguia acalmá-lo e que conseguia "dobrá-lo" de maneira a que não existissem crises com muita relevância. Gostávamos tanto um do outro que ele era capaz de me ver ao fundo de uma rua e corria como se não houvesse amanhã só para se agarrar a mim. 

Ele foi crescendo e quando dei conta já estava na escola. A professora quase nada podia fazer dele e só o sentando ao seu colo é que conseguia que ele trabalhasse. Demorou mais tempo do que o normal a fazer os primeiros quatro anos de escola mas chegou ao quinto ano feliz por se ter superado. Foi aí que encontrou a primeira escola e a primeira professora que o fizeram sentir-se mal. Numa escola onde não haviam apoios para crianças com dificuldades de aprendizagem ele era visto como mal-educado. Como se ele tivesse culpa da doença que tinha e que a medicação não cura. Nestes casos é preciso uma dose extra de paciência e muito jogo de cintura. Ele foi expulso dessa escola porque uma das professoras simplesmente não conseguiu lidar com aquilo que ele era. Claro que houve culpa dos dois lados mas ainda assim era ela a adulta e não se soube comportar como tal. Ele acabou por ir para a escola onde eu própria andei e aí encontrou um outro rumo. Adaptaram aulas para ele, os professores sabiam como levá-lo a fazerem o que eles queriam sem que fossem directos. E apesar de ainda amar o meu primo foi nessa altura que perdemos por completo o contacto.

Há dois dias atrás entrou um rapaz novo, com cerca de nove anos, no ATL onde trabalho. E apesar de ser uma criança complicada, eu sorri. Ele era tal e qual o meu primo. O comportamento, o olhar sempre activo, a necessidade de descobrir tudo e de mexer em tudo. Durou pouco a minha felicidade. As minhas colegas fizeram uma tempestade e, ao que parece, ninguém sabe lidar com ele. Podem até achar que estou a vangloriar-me mas a verdade é que comigo ele se tem portado bem. Sei como dizer-lhe que não. Sei como conseguir que ele partilhe os seus brinquedos. Mas não consigo evitar a maneira como os outros lidam com ele. Crianças assim não gostam de ser contrariadas ou agarradas. Aliás, nenhuma gosta. Mas estas reagem muito pior. Ficam com raiva e tudo o que está à frente delas voa. Vi tantas vezes acontecer isso com o meu primo... E o meu coração aperta-se de cada vez que vejo as minhas colegas com ar chateado e a dizerem que não vão aguentar um ano com uma criança assim. Dá-me vontade de dar o corpo às balas e dizer que fico ali, que me disponibilizo para ser uma mão extra. Dá-me vontade de abraçar o pequeno e dizer-lhe que ele não tem culpa. Porque não tem. Ele é assim e não o sabe controlar. Não consegue controlar a força, a curiosidade. Não tem noção do perigo, das consequências.

De um lado tenho os meus pequenos, aqueles que acompanho há três anos e dos quais me irei despedir no final do próximo ano lectivo. Do outro tenho a fotocópia do meu primo que, apesar da distância, ainda amo. E estou indecisa sobre o que fazer. Tenho medo de errar no caminho a seguir e de me arrepender. Mas uma coisa é certa: aquele menino precisa de alguém que o compreenda. E, por enquanto, só eu o consigo fazer.

7 comentários:

  1. Este texto deixou-me um bocadinho triste :( Acho que a hiperatividade é um assunto levado muito pouco a sério, chamam hiperativos a todos os miudos que são um pouco mais espevitados e depois quando aparece um que realmente é hiperativo não se sabe lidar com ele!
    Um beijinho enorme para ti e para esse menino :)

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  2. Parece um cliché, mas ouve o teu coração. No fundo, tu sabes a decisão que hás-de tomar, mas é natural que existam dúvidas e receios.
    As crianças não têm culpa, não são elas que escolhem ser assim. Nós, enquanto adultos, temos que saber lidar com elas, arranjar estratégias para que o rumo delas não se perca. É preciso paciência a dobrar, mas acredito que no fim compense. Não se pode é desistir.
    Força, minha querida <3

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  3. Pelo que vou ouvindo, são necessárias qualidades especiais, que não se aprendem na faculdade, para lidar com esse tipo de crianças.
    Como já referi algures, a minha filha deu formação em centros de formação profissional, a "miúdos" complicados e deu-se sempre muito bem.
    Agora (desde há dois anos), está num colégio particular do ensino especial e, embora se queixe que é cansativo, mostra um grande entusiasmo por conseguir quase sempre lidar com os casos mais problemáticos.
    É preciso saber "chegar" a essas crianças e isso nasce com a pessoa, não se aprende. :)

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  4. A verdade é que os professores e os educadores ainda não estão treinados para lidar com vários tipos de problemas.
    Lembro-me de ter colegas hiperactivos e de como isso incomodava os professores, pois estes não sabiam como se dobrar para resolver várias situações.
    Espero que a tua calma e paciência sejam suficientes para o teu novo pequeno.

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  5. Tens um coração de ouro. E esses meninos também o têm, e esse menino agora tem muita sorte em te ter ao seu lado. És GRANDE. Já tentaste reencontrar o teu primo?
    Beijinho ♥

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  6. Acho que deves continuar a acompanha-lo se ele se sente bem contigo, não o deixes :)
    Queria ver se as tuas colegas tivessem um filho assim se iam dizer que não iam aguentar o filho e queriam mandá-lo embora. É difícil, mas como tu bem dizes, não tem culpa!

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