sábado, novembro 14

: O que o nevoeiro me trouxe.


Éramos completos desconhecidos quando te sentaste ao meu lado, num dos muitos sofás no átrio do hotel que nos recebia, na serra de Sintra. Lembro-me que estávamos a meio da tarde e que o nevoeiro nos rodeava, sem dar qualquer trégua. Olhei para ti, pelo canto do olho e reparei na tua postura descontraída enquanto lias o jornal. Pressentindo o meu olhar viraste a cara totalmente para mim, falando de forma pausada:

- Quando não se espera ninguém o mundo trata de colocar alguém no nosso caminho.

Confusa, observei-te. Quem era aquele homem que, numa tarde como qualquer outra, parecia saber ler-me os pensamentos? Como saberias que estava sozinha? Pela postura do meu corpo, pela descontracção com que olhava em redor? Por me fazer acompanhar por um livro? Mil perguntas se formavam na minha mente mas a verdade era só uma: tinhas razão. Eu não esperava ninguém e ninguém esperava por mim. A minha estadia naquele hotel tinha sido um escape às dores do coração. E agora ali estava eu, sentada ao lado de um desconhecido com o dom da eloquência. Sorri com esse pensamento e interpretaste o meu sorriso como um sinal para te aproximares. Olhaste para a capa do meu livro, um clássico português. Pegaste nele, delicadamente, pousando-o entre nós.

- Não há motivo algum para que duas pessoas não se conheçam. Se vivemos então é nossa obrigação aproveitar a vida. Não concorda?

Oh, concordo pois. Perdemo-nos na conversa até bem de noite. Até que seguimos caminhos diferentes, cada um rumo ao seu quarto. No dia seguinte procurei-te por todo o hotel, mas era como se não tivesses passado de um sonho. Era como se o nevoeiro te tivesse trazido para me confortares e o nevoeiro te tivesse levado quando tudo estivesse bem. Não fiquei triste, descansa. Graças a ti, foi esse o dia em que o frio gelado do nevoeiro passou a aquecer o coração que habita em mim. Nunca mais me senti só.

5 comentários:

  1. Que lindo texto! Escreves muito bem, vou ser uma visitante frequente.

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  2. Coisas boas acontecem quando menos esperamos por elas. Pode parecer um cliché, e tantas vezes lemos/ouvimos algo do género, mas a verdade é que o não estar a contar joga muito a nosso favor, porque deixamos de procurar e de tentar antecipar o que pode vir a acontecer.
    Está incrível, minha querida! E transporta-nos mesmo para essa realidade.

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  3. Gostei tantooo de cada palavra que escreveste que de um momento para o outro fui capaz de me sentir na pele da pessoa que viveu isto, na tua pele.

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À noite gosto de contar as estrelas que estão no céu e de ver por onde anda a Lua. E tu do que gostas?