domingo, novembro 15

Tu.


Tu, que passas por mim e finges não me ver. Tu, que vives nessa bolha de falsa segurança. Tu, que te queixas da tua vida aos sete ventos, para que tenham pena de ti. Tu, que esbanjas dinheiro sem pensar duas vezes, simplesmente porque podes. Tu, que vives sem planear o futuro. Tu, que te indignas com os males do mundo, fingindo ter alma humanitária, mas sem que faças realmente algo. Sim, tu. É a ti que dedico estas palavras. Ouve-me. Lê-me. Não me importa como te chega esta mensagem, desde que te faça parar e pensar. 

Sabes porque passas por mim na rua e te parece que me vês sempre a dormir? Porque só assim ignoro a fome que me contorce o estômago. Porque só assim ignoro a volta dramática que a minha vida deu. Já estive no teu lugar, sabias? Também já dei o futuro como garantido e ignorava todos os sinais de alerta. E só quando me vi aqui, deitada num cartão, dei valor a uma coisa tão simples como uma cama. Enrolo-me nos cobertores que fui recolhendo e seco as lágrimas com o frio. Sinto a pele áspera e tenho vergonha de ver o meu reflexo. Se procuro trabalho? Não faço outra coisa. Mas achas mesmo que alguém me dá trabalho? Tornei-me um fantasma, uma pedra no sapato da sociedade. Ignoram-me, na esperança que eu desista de tentar ser pessoa. Dependo de almas carinhosas e a elas devo o pouco que ainda sou.

Eu já fui como tu, inconsequente. Agora? Agora resta-me adormecer cedo para esquecer que a fome me está a matar. Abre os olhos antes que seja tarde demais.

#Fictício 

4 comentários:

  1. Damos tudo por garantido sem perceber que a vida dá tantas voltas e que um dia nos pode mudar do avesso.

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  2. Está tão de acordo com o que acontece, muitas vezes, na nossa sociedade.

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  3. Eu sempre dei valor aquilo que tenho. Quando fico triste, eu fico que pensar, eu não fico desvalorizar os meus problemas mas penso sempre que eu estou melhor do que outras pessoas. Eu tenho uma casa, uma cama, comida e há pessoas que nem isso têm. E isso torna-se um incentivo para que eu lute e não dê as coisas como garantidas. Acho que isso é um dos grandes problemas da sociedade. As pessoas acham que têm as coisas como garantidas mas estão enganadas.
    Bjs

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À noite gosto de contar as estrelas que estão no céu e de ver por onde anda a Lua. E tu do que gostas?