segunda-feira, agosto 1

: [ Filhos do Abandono ] de Torey Hayden


Tenho imensos livros sobre os quais, cronologicamente, deveria falar primeiro. Quatro, para ser mais precisa. Mas preciso libertar-me do peso da história deste livro em primeiro lugar. 

Para quem trabalha com crianças sabe que a realidade familiar em que elas vivem nem sempre é a melhor. Até quem não trabalha em contextos escolares decerto já se apercebeu de alguns casos, talvez próximos de si. Em quatro anos de trabalho tive a sorte de não me deparar com realidades familiares demasiado pesadas ou onde existisse abuso infantil. Ler este livro da Torey fez-me ficar de coração apertado. Li-o, bastante rapidamente, ansiosa por saber que tudo tinha acabado bem para as crianças sobre as quais ela fala. Nem sempre isso acontece e há muitas vidas que ficam comprometidas logo nos primeiros anos de existência. Mas, neste caso, a acção dela foi bastante importante para as mudanças certas ocorrerem.

Saber que algo semelhante ao que li pode estar a acontecer debaixo do meu nariz faz-me parar e ponderar tudo aquilo que ouvi e presenciei. Abre-me os olhos para pequenos sinais, para possíveis momentos em que terei de ser eu a agir. Não devemos, nem podemos, deixar que as crianças sejam filhos do abandono. Que sofram às mãos de quem deveria cuidar delas. Não devemos, nem podemos, deixar que mais vidas sejam comprometidas. Vidas que têem nelas a pureza de um coração novo. Podemos - e devemos - estar atentos, actuar nos momentos certos, fazer uso do nosso discernimento. Está nas mãos de todos nós dar vida a todas estas vidas.

Este é um livro que não aconselho se forem facilmente impressionáveis. Mas é, ao mesmo tempo, um livro que nos ajuda a crescer e a ver a infância com outros olhos. Nem sempre é simples ser criança...


Em jeito finalizador apresento-vos as duas citações que mais me marcaram ao longo das páginas:

« "Quando a situação já é desesperada, os teus actos não vão agravá-la. Portanto, vale sempre a pena correr o risco, só para veres se tens uma pequena oportunidade de a melhorar." » (página 73)

« "As nossas mentes estão povoadas de coisas estranhas - continuei. - Quando temos de enfrentar um problema muito grave, ele tende a assumir grandes proporções na nossa mente e apenas passa a recordação quando falamos dele. A nossa cabeça é incapaz de se libertar dele por si só, reduzindo-o à dimensão das nossas outras lembranças. Precisamos de falar dele. Dessa forma, ajudamos a nossa cabeça a organizar o que se passou: isso ajuda-nos a compreender como se passou, o que sentimos e o que fizemos. É como se tivesses um cesto enorme cheio de roupa lavada, no meio do teu quarto, a ocupar muito espaço. Vê-lo sempre que entras no quarto e talvez até tropeces nele, se não prestares atenção. Contudo, se organizaes o que está lá dentro: dobrares as toalhas, enrolares as peúgas, podemos arrumar tudo devidamente. É o que se faz com os pensamentos, ao falar. Isso permite-nos arrumar as coisas que nos aconteceram, de modo a deixarem de estar no meio do caminho, sempre que pensamos nelas." » (página 246)

4 comentários:

  1. Eu trabalho em hospital e casos assim é muito continuo com crianças. Realmente me dói saber o que acontece com elas. Se as pessoas vão ser punida? É um livro para refletir muito com certeza. Achei interessante e vou se acho aqui no brasil.

    Beijinhos linda.

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  2. Já li quatro livros desta autora e em todos eles precisei de respirar bem fundo, porque as situações que ela nos descrevem são realmente difíceis de digerir. E o mais assustador é mesmo percebermos que não são realidades assim tão distantes.

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  3. Já li este livro há uns anos e marcou-me até hoje. É excelente.

    Um beijinho

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  4. Quando era bem mais nova do que sou hoje, li o "Confissões de uma Adolescente", de Camila Gibb. Na altura, impressionou-me bastante. Há um tempo comprei-o (encontrei-o, da primeira vez, na estante da biblioteca da escola). Sinto que, apesar de saber que vai voltar a apertar-me o coração, tenho que o reler.
    Acho que sim, é importante perceber os sinais, porque um dia poderá ser a criança ao nosso lado, tal como, por uma conjugação de acaso, poderíamos ter sido nós.
    ***

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À noite gosto de contar as estrelas que estão no céu e de ver por onde anda a Lua. E tu do que gostas?