segunda-feira, agosto 15

: Portas e janelas fechadas.


- Já tomaste a tua decisão não foi?! Não imaginas tudo aquilo que vais perder... 

Disseste a tua última frase, dirigida a mim, como quem cospe todo o veneno que acumulou durante anos no âmago da sua alma. Foram essas palavras que fizeram a nossa vida conjunta passar em frente aos meus olhos. Relembrei o doce início do nosso amor, quando um simples sorriso bastava para que o nosso coração batesse mais rápido. Relembrei aqueles passeios por horas a fio em que trocámos sonhos e entrelaçámos o futuro, desejando que os nossos caminhos nunca se separassem. Relembrei a forma como nos respeitávamos profundamente. Não demorou muito a que esse frágil castelo de cartas ficasse prostrado no chão. Deixaste de confiar em mim e eu tive que aprender a viver na sombra daquilo que queria ser. Tanto que me impedi de fazer para não te chatear. Oh bolas, tanto que eu deixei para trás. Por ti. Pelo amor que te sentia. Que ainda sinto. Mas o amor não chega. Não nestas condições. Desculpa-me mas não sou capaz de viver mais esta vida em constante pausa, ansiando pelo dia em que os teus macaquinhos no sótão irão procurar outra casa para habitar. Estou cansada de ver os meus sonhos escondidos em palavras que não digo. Não há amor que pague a minha liberdidade. Não há amor que pague eu não lutar por tudo aquilo que sempre quis. Não há amor que pague viver prisioneira num relacionamento no qual não sou feliz. Decidir seguir um caminho diferente do teu, por muito que me custe, será provavelmente a melhor escolha que fiz nestes últimos anos. Ainda que o meu coração sangre, pelo amor que ainda nos une: esse sentimento contraditório capaz de me fazer sorrir e chorar no mesmo dia.

Reviraste os olhos, perante o meu silêncio, virando-me as costas e deixando-me sozinha no meio do passeio. Mostraste, com esse simples gesto, que também tu desistias de tudo aquilo que não chegámos a ser. Ainda consegui gritar para as tuas costas as minhas últimas palavras; um tiro certeiro.

- Tu é que não imaginas tudo aquilo que vou ganhar.

E tu nem sequer olhaste. O nós acabou. De vez.

#off the records
#histórias de bolso

4 comentários:

  1. Que texto tão wow e tão triste ao mesmo tempo.
    Continuas sempre a escrever tão bem!

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  2. Nunca podemos deixar de ser quem somos ou de fazermos aquilo que ambicionamos por uma pessoa, por muito que a amemos, não podemos. A vida segue :)

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  3. Está tão bonito o texto! O problema muitas vezes, são as pessoas não estarem felizes ou sentirem-se presos numa relação e nada fazem para mudar.

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  4. Também gostamos de escrever umas coisinhas giras, não é verdade? =)
    Acho que criar e imaginar é uma "profissão" nobre =) Quem sente o seu apelo, devia deixar-se levar ^^
    ***

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À noite gosto de contar as estrelas que estão no céu e de ver por onde anda a Lua. E tu do que gostas?