: O que esperamos das crianças?


Este ano comprei, pela primeira vez, uma agenda dos Educadores de Infância. Em todas as páginas há uma sugestão de atividade e bastantes destas são interessantes e dão para adaptar facilmente ao meu grupo. Mas depois surgiu esta:

Simetrias com arte
Dar a cada criança uma folha de papel A3 e um lápis. Solicitar que dobrem a folha a meio e a voltem a abrir. Na marca da dobra, traçar uma linha com lápis. Cada criança dispõe a sua folha no chão e aguarda. O educador disponibiliza dois copos com tinta de dedos, de cores diferentes, para cada par de crianças. De forma organizada, uma criança ajuda o seu par a pintar as palmas das mãos (uma de cada cor) e a outra vai carimbar as mãos no papel (uma de cada lado da linha). O colega vira a folha e repete a ação de pintar as mãos e carimbar por quatro vezes. Após finalizar, cada criança observa a simetria entre as mãos de um lado e do outro da folha, chamando a atenção para as cores das mãos.

Fui só eu que achei esta atividade um pouco irrealista? Desde esperar que sejam as crianças a pintar as mãos umas às outras - tendo em conta o meu grupo só consigo imaginar cenário de "guerra" - até ao ponto de antecipar aquilo que lhes vai chamar à atenção depois do trabalho terminado... 

Quando um educador/professor cria uma atividade sabe, à partida, que muito provavelmente não irá correr como pretende. Esperar a perfeição é descabido, no meu ponto de vista. Além de que coloca muita pressão na forma como lidamos com o grupo. Há que saber dar a volta aos imprevistos (sem pensar muito no assunto) e quem sabe melhorar ainda mais o que inicialmente planeámos, recorrendo à ajuda dos mais pequenos. E o quanto eles nos podem ajudar!! Não é vergonha nenhuma assumir que algo correu mal e que foi necessário adaptar a ideia. Vergonha é colocar tamanha pressão em cima de crianças pequenas e fazê-las sentirem-se culpadas por não atingirem os parâmetros de avaliação. Eu desafio os meus pequenos mas sempre com a realidade da nossa sala presente. Cada um deles tem o seu ritmo e não seria boa profissional se não respeitasse isso. Acredito mesmo que devagar se chega mais longe, clichês à parte! Não tenciono que eles terminem o ano a ler, escrever ou a dividir números com três dígitos. É para isso que serve a escola primária e foco-me apenas nas bases essenciais para que eles sejam bem sucedidos quando entram nessa nova fase.

Deixemo-los serem crianças. Eles que aproveitem para brincar enquanto aprendem. Não há pressas...

Comentários

  1. «Deixemo-los ser crianças», ora nem mais! Acho que o problema é quererem escolarizá-las desde muito cedo, depois nem se apercebem da pressão que lhes colocam.

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  2. Pelo que tenho lido, nota-se que fazes um bom trabalho e conheces as crianças com quem trabalhas, continua tal e qual como és e com as tuas próprias ideias :) Beijinhos

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  3. Claro que é uma actividade irreal, dentro do contexto. Se estivermos numa sala previamente preparada para a actividade, coberta do chão ao tecto, dá para fazer. Mas na realidade das nossas salas é impossível.
    Acho que há uma tendência a responsabilizar as crianças cada vez mais jovens e isso só lhes tira o melhor que a infância tem.

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