segunda-feira, janeiro 29

: Porque é que não precisamos da "Super Nanny"?


Assim que começaram a aparecer os primeiros anúncios à Super Nanny disse logo que não iria ver. Enquanto educadora faz-me espécie as famílias acharem que o melhor método para educar os seus filhos é recorrer a um programa de televisão. Há famílias que precisam de ajuda, sim, mas que frequentem cursos onde outras famílias também partilham as suas dúvidas. Que procurem ajuda profissional mas de forma privada. 



Já pararam para pensar no quanto aquelas crianças se sentiram incomodadas no espaço que deveria ser "seguro" para elas. Já imaginaram que o comportamento delas poderá ter alterado por estarem expostas a estímulos desconhecidos? E nem vou falar na questão do direito à privacidade. Muitos equiparam esta exposição a nível nacional aquela que muitos bloggers fazem dos seus filhos. E em parte concordo. Conhecemos as caras, os nomes, as idades, as rotinas de muitas crianças pequenas. Conhecemos as manhas, as birras, os gostos. A plataforma social é diferente mas a verdade é que a exposição é bastante semelhante. Eu sou daquelas pessoas à antiga que não gosta de expôr tudo nas redes sociais. Acho que há pormenores que devem ser mantidos em família e tenciono, quando for mãe, resguardar a criança ao máximo. 

Não sou extremista e falo muitas vezes sobre o meu trabalho, sobre as crianças. De vez em quando até ponho uma imagem dos trabalhos no instagram. Mas como podem confirmar se procurarem em post's mais antigos nunca digo o nome delas, nunca mostro as suas caras nem nunca dou detalhes que as identifiquem. Como podem ver é possível falar sobre os assuntos relativos à educação sem expôr terceiros. Sem violar a sua privacidade. Digo-vos mais... Em todos os meus relatórios de estágio os nomes das crianças foram alterados e mesmo com autorização dos pais não metíamos imagens das suas caras. Tudo em prol do superior interesse dos mais pequenos. 

Compreendo que muitas famílias sintam dificuldades em educar os filhos. Vivemos numa sociedade que põe muita pressão em cima de tudo e de todos. Vivemos numa sociedade em que os casais têm filhos cada vez mais tarde e se queixam que o tempo é escasso, porque os trabalhos nos consomem cada vez mais. Mas também é verdade que isso já acontecia no passado e não servia de desculpa para justificar faltas de respeito. A grande diferença é que antigamente os pais não hesitavam em dar uma palmada - algo que não defendo de todo - e hoje em dia os pais tentam tanto dar uma disciplina positiva que caem num grande erro: não dizer não. Deixam as crianças crescerem sem limites e depois quando elas têm uma certa idade torna-se difícil controlar aquilo que nem deveria existir. Sei de casos em que as crianças batem nos pais e nos avós. Sei de casos em que as crianças sabem manipular os pais para conseguir aquilo que querem. Sei de bastantes casos em que as crianças não sabem ouvir um não

Muitas das vezes os pais esquecem-se que não podem ser só amigos dos filhos. Esquecem-se que não é por fazerem tudo aquilo que eles querem que os compensam pela falta de tempo. Têm que ser pais, fazê-los entender a diferença entre o certo e o errado, dar-lhes bases para viver em sociedade. Enquanto educadora todos os dias me confronto com crianças que ao ouvir um não da nossa parte se atiram para o chão a gritar. Ou que se por acaso temos a ousadia de lhes tirar o brinquedo, porque se portaram menos bem, nos dizem «vou dizer à minha mãe». Já tive uma mãe a ligar no final do dia para questionar porque é que o filho dela ficou de "castigo". Tanto eu como a minha colega não usamos a palavra castigo. Sentamo-los ao pé de nós, temos uma conversa e passado algum tempo - o tempo de descanso - voltam a ir brincar. Há pais que questionam porque é que não os deixamos brincar como querem. Como se bater nos amigos e, muitas vezes, destruir as brincadeiras fosse algo correto. O meu trabalho não é fácil, confesso. Há dias em que me sinto desmotivada e em que acho que não estou ali a fazer nada. Sinto que os pais não se querem preocupar, que é mais fácil deixá-los fazerem o que querem. 

E depois há pais que reconhecem que os limites do aceitável já foram ultrapassados e procuram a nossa ajuda. A minha dica é sempre a mesma: sejam coerentes. Se é não, é não. Expliquem o porquê para que eles começam a perceber as regras. Se o motivo do choro for por birra então desvalorizem. A criança acabará por se acalmar e aí sim, poderão conversar. Não lhes dêem o que elas querem enquanto estiverem a fazer birra. Não cedam. Sejam pais amigos e não amigos que, por acaso, são os pais. Sejam adultos. 

Não há nenhum livro que ensine a educar crianças. Também não há fórmula secreta. Mas há truques que aplicados desde sempre irão surtir um efeito positivo. Não precisamos de super nanny's em nossa casa. Precisamos de pais informados. De pais responsáveis.

14 comentários:

  1. Ao início achava o programa interessante, mas depois vendo bem as coisas, estão a expor a sua vida e a dos filhos o que é mais grave ainda, darem a conhecer os seus filhos da forma que dao5

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  2. Ouvi falar desse programa, mas nunca vi. E quando ouvi alguém falar da forma como ele seria feito e exposto desagradou-me logo. Acho que é uma falta de privacidade e, como tu dizes, não é disso que se precisa nem é isso que vai mudar as coisas.
    Em relação a tudo o resto que escreveste não poderia estar mais de acordo, há muitas formas de tentar lidar com as coisas, mesmo que seja difícil temos de saber impor-nos. Não sou mãe, mas com o que vou vendo por aí sei o que quero e o que não quero fazer quando o for.

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  3. Concordo plenamente com o que escreveste. Acho que há uma violação dos direitos das crianças e que as pessoas não param sequer um segundo para ponderar acerca dos mesmos.
    Eu não tenho qualquer experiência pessoal relativamente a crianças, mas não é por isso que não consigo ver que o que dizes espelha tudo pontos muito válidos!
    Beijinhos

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  4. Eu também nunca vi, nem irei ver essa porcaria de que toda a gente fala. Aliás, não vejo reality shows nem nos canais do cabo, que ficaram uma miséria desde que começaram a transmitir esse tipo de programas.
    Quanto à educação dos putos, não podia estar mais de acordo contigo. Muitos pais não percebem que um não na altura certa, vai evitar muitas tareias e dissabores pela vida fora. Pensam que por "castigarmos" os nossos filhos, somos piores pais do que eles. E não me venham com a conversa da falta de tempo. Os pais do tempo dos meus, trabalhavam de sol a sol. Para quem não sabe, de sol a sol, significa que tinham de sair de casa de madrugada, a tempo de percorrerem seis ou sete quilómetros a pé e pegarem na enxada ou na foice, quando o sol nascia e só largavam o trabalho, quando o sol se punha. Depois faziam o percurso inverso e as mulheres chegavam a casa e ainda tinham que fazer umas sopas para a ceia, porque o jantar era às três da tarde. Muitas vezes os filhos ficavam sozinhos em casa, entregues a um irmão ou irmã mais velha, por quem tinha tanto respeito como aos próprios pais. Muitas vezes, semanas ou meses antes do Natal, os pais enfrentavam a árdua tarefa de convencer os filhos de que, naquele ano, o "Menino Jesus" não podia passar lá em casa, porque não tinham dinheiro nem para uma boneca de cartão ou um carrinho de lata. E nós crescemos felizes na mesma, porque se a felicidade custasse dinheiro, só os ricos é que podiam ser felizes.
    Hoje vamos a um centro comercial e vemos os miúdos a berrarem e a esponjarem-se no chão, com birras que nos deixam mais envergonhados do que aos próprios pais. As crianças crescem infelizes, rodeadas de coisas fúteis que só lhes conseguem despertar a atenção na primeira meia hora, se não for menos.
    Desgosta-me viver um mundo com tudo para fazer a humanidade feliz e sermos cada vez mais infelizes e capazes de fazer a infelicidade de quem nos rodeia. :(

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  5. Vi o primeiro episódio e realmente fez-me imensa confusão a invasão do espaço pessoal daquela criança. Tanto pela "Nanny" como pela equipa de filmagem.
    Obrigada por mostrares a tua perspectiva e experiência :)
    Também concordo que não é vergonha pedir ajuda, desde que à entidade correcta.

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  6. O programa em questão, confesso, passou-me completamente ao lado. Só soube da sua existência assim que comecei a ler as primeiras críticas. Naturalmente, sobre o seu conteúdo não posso falar, mas quando percebi os contornos também optei por não ver. Precisamente por achar que este género de exposição não é benéfico.
    Precisar e procurar ajuda não é errado. O que é errado é encontrar soluções num método que quebra totalmente a privacidade, neste caso, da criança. Porque isso vai afetá-la e, até, provocar o efeito contrário daquilo que se procura.
    Os pais não se podem esquecer de que são pais, que têm que estabelecer limites, que precisam de dizer não. Tratar a criança com respeito não implica deixá-la fazer tudo o que ela quer, assim como uma educação mais positiva não implica uma abolição completa do não. É preciso encontrar um equilíbrio. E, como referiste, ser-se coerente.
    Pessoalmente, acho que disseste tudo. Não podia estar mais de acordo com o teu ponto de vista!

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  7. bem verdade! eu não achei piada nenhuma nesse programa

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  8. A forma como o progrma foi feito e a maneira como expõem as crianças é terrível, e por isso nunca assisti a nenhum episódio nem tenho a mínima curiosidade em vê-lo.
    As crianças têm direito à sua privacidade e ao resguardo da sua imagem. Têm direito a escolher se querem aparecer ou não, e neste caso não tinham escolha.
    Há coisas que devem ser mantidas na esfera privada e este é um dos casos.
    Compreendo o desespero de muitos pais, que perante tantas birras e discussões provavelmente já não sabem mais o que fazer. Agora expôr os filhos desta maneira não.
    Beijinhos

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  9. Não vi o programa, mas a verdade é que tal como dizes não deveria ser necessário recorrer a um programa de TV para resolver estas situações!

    Bjxxx
    Ontem é só Memória | Facebook | Instagram

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  10. Não mudaria nem uma vírgula. Apesar de o meu percurso académico e profissional estar bem longe da área da educação, sinto um apelo muito grande para refletir sobre ela, e tenho exatamente a mesma percepção que tu neste assunto: uma nanny que expõe, que vai munida de respostas que não falham, que se assume como dona da verdade da resolução de problemas de uma família (como se fosse uma fórmula matemática de aplicação igual para todas as circunstâncias!) não me inspira a mínima confiança e até me deixa preocupada! Para onde caminhamos quando a solução para uma família disfuncional é a ridicularização na televisão nacional?! É que culpam-se as crianças pela indisciplina, culpam-se os pais pela falta de pulso... culpam-se todos os intervenientes e ninguém é capaz de assumir que cada família é um mundo, cada criança também, e que devem ser acompanhados com tempo e dedicação, de forma a perceber a origem do problema e atuar sobre ele?!
    Felizmente o programa foi descontinuado, e felizmente vejo que há muitas críticas certeiras à fantochada que aquilo foi!

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  11. Concordo plenamente com o aqui dizes. Cada vez mais nos dias que correm as crianças não sabem ouvir um não. Um ''não'' é necessário para compreendermos desde cedo que não podemos fazer nem ter sempre aquilo que queremos. Ensina-nos também a valorizar e a ser humildes. Como dizes ''precisamos de pais responsáveis.

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  12. r: Tens uma relação estável, partilhas casa com o teu namorado e na cabeça das pessoas o passo seguinte tem que ser um filho. Porém, nem param para pensar que pode não ser um desejo do casal, por exemplo. As coisas não têm que seguir determinada ordem só porque, supostamente, sempre foi assim.
    Sim, infelizmente, é verdade!

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  13. Por acaso, não vi o programa, mas já vi imensas críticas em relação a este assunto. Neste caso, concordo plenamente contigo! Há que ser, como dizes, «coerente»!

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  14. As crianças não vêm com livro de instruções. Não é fácil educar e (segundo se diz) é a profissão mais difícil, ser pai e mãe mas não impossível. Cada criança é diferente e a adaptabilidade é sempre uma aprendizagem para educandos e educadores. Com o melhor de cada um, com amor, paciência e limites é possível educar de forma correta ou tentar que assim seja. Um "não" na hora certa também educa.

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À noite gosto de contar as estrelas que estão no céu e de ver por onde anda a Lua. E tu do que gostas?