terça-feira, abril 24

"Primeiro dia como Educadora de Infância: qual era o teu maior receio?"

A pergunta foi feita pela Andreia Morais - recente mestre em Educação Pré-Escolar - e eu achei que merecia um post especial, para me poder alongar nas palavras.


Ao longo dos quatros anos na faculdade os professores disseram-nos várias vezes que não seria fácil arranjar trabalho. Davam-nos dicas, diziam-nos para fazermos voluntariado fora e dentro da área, para fazermos pequenos cursos, para sermos ativos. Tudo vale quando diz respeito a ganhar currículo pois só assim conseguimos ter minimamente experiência quando chegamos aos estágios e posteriormente a um posto de trabalho efetivo. 

Os estágios são carregados de stress não só pela carga de trabalho que temos de fazer/apresentar como também pelos nervos de não estar à altura. De ter uma má nota. Lembro-me que no meu primeiro estágio me senti completamente perdida, apesar de fazer voluntariado numa creche. Fui ganhando confiança e a partir daí comecei a ver as coisas de outra maneira. Três estágios depois - dois em pré-escolar e um em creche - tinha o título de Mestre em Educação Pré-Escolar e o mundo por conquistar. 

Não consegui logo trabalho como Educadora mas comecei a trabalhar num ATL com crianças entre os 3 e os 14 anos. Tive a sorte de ficar com as crianças mais pequenas - da idade de pré-escolar - e aqueles três anos deram-me mais experiência do que algum dia poderia imaginar e prepararam-me para muitas coisas. Quando surgiu a oportunidade de estar à frente de uma sala não pensei duas vezes. Mas aqueles receios que tinha sentido enquanto estagiária tinham voltado. Estava à três anos fora daquela realidade. E se não conseguisse cativar as crianças? E se não estiver à altura do desafio? E se não conseguir que eles aprendam algo? Nos primeiros meses sentia-me sempre pressionada, não pelos outros mas por mim. Até que decidi respirar fundo e relembrei os estágios. Relembrei os bons momentos. Obriguei-me a relembrar que bastava dar o melhor de mim e tudo iria correr bem. Ao longo do ano vi as crianças evoluir e senti o maior orgulho nelas. Porque, no final de contas, são elas que importam. 

Este já é o meu segundo ano enquanto Educadora e vou construindo o dia-a-dia sem pressas. Planeio objetivos gerais para o ano mas vou avançando conforme os ritmos das crianças, semana após semana. Respondemos a dúvidas, mexemos na terra, inventamos brincadeiras, aprendemos numa dinâmica alternativa. Vejo agora que os meus receios eram infudados: em cada abraço que recebo, em cada brincadeira que temos, em cada vez que se atiram para cima de mim. Esforço-me por ser um porto seguro, para que sintam felizes. Ainda tenho alguns receios, não vou mentir, mas são eles que me fazem avançar. Que me fazem procurar fazer o meu trabalho da melhor forma. São os vários receios que me fazem ler, informar-me, pesquisar. São os receios que nos fazem ser os melhores profissionais possíveis. 


Ser Educadora não é fácil mas é tão recompensante!

10 comentários:

  1. Adorei ler esta tua publicação... e acho que deves saber porquê! Acho que todos os que estão na área da Educação sentem o que aqui colocaste. Eu, que estou agora a terminar o meu único ano de estágio, já passei pela pressão e ansiedade de poder não ser capaz, não tanto pela nota final mas pelos alunos (porque, no meu caso, tenho alunos de 11.º ano que vão enfrentar um exame decisivo no próximo ano). Com o tempo fui ganhando confiança, mas sei que quando for dar aulas completamente sozinha e já com o curso terminado, a ansiedade e pressão irão voltar. Mas acho que é normal, e faz parte :)

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  2. Quando se tem paixão pelo que se faz, até as coisas mais difíceis se tornam um incentivo.
    Que continue tudo conforme os teus desejos.
    Bom feriado.

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  3. Que aconchego que foi ler esta resposta! Não só por sentirmos que não estamos sozinhos (no que aos receios diz respeito), mas também pela mensagem positiva e inspiradora *.*
    Acho que o meu maior receio sempre foi não estar à altura, porque as crianças merecem o melhor de nós. Mas, de facto, é preciso aprender a desconstruir. Arriscar. E saber ouvi-las.

    Muito, muito obrigada por teres feito dessa pergunta uma publicação. Senti-me ainda mais no caminho certo <3

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  4. Eu tive momentos muito felizes como técnico animador socio cultural no jardim de infância, 3 meses de estágio muito enriquecedores mas que sinceramente não me via a fazê-lo novamente, acho que é mesmo preciso ter uma grande vocação e ainda bem que fazes aquilo que tanto gostas! =)

    MRS. MARGOT

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  5. Gostei de ler, que continue a correr sempre pelo melhor! :) Beijinhos

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  6. Ao ler o teu texto não parava de pensar o quão desafiante e por vezes frustrante deve ser quando delineias um plano e ele sai ao lado porque, lá está, quem dita o ritmo são as crianças. Ainda ontem fui a uma creche fazer uma sessão de educação para a saúde sobre a vacinação e no fim duas crianças agarraram-se aos meus pés e eu não conseguia vir embora. Foi a galhofa total, mas foi apenas uma hora exaustiva. Como será um dia inteiro? Que desafio!

    JU VIBES | @itsjuvibes ❤

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  7. R:Ooooh *.* Já estou a corar :P
    Obrigada pelas tuas palavras <3 Não sabia que já tinhas escrito um livro :o
    Talvez um dia o apresente aí para esses lados, se surgir oportunidade ;)

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  8. R:Claro que aviso ;) Sou uma tótó! Já me tinhas falado do teu livro sim nunca mais me lembrei :$ Sorry. Quando tiver oportunidade vou comprar e depois quero que um dia me dês um autografo sff :P

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  9. Gostei muito desta publicação. Posso vir a trabalhar com crianças, crianças muito especiais e tenho também receio de errar, de não estar à altura. Depois de ler isto acho que por mais difícil que seja, tudo é possível se tivermos paixão no que fazemos e vontade de trabalhar.
    Espero que continue tudo a correr bem, que continues a inspirar-nos porque nota-se a léguas o amor pelo que fazes, o mundo precisa de pessoas assim.

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