sábado, novembro 3

: As coisas que aboli na minha casa.


Quando moramos com os nossos pais temos que fazer certas coisas ao jeito deles. Podemos nem concordar - muitas das vezes vamos acabar por resmungar e ouvir a típica frase "Enquanto morares debaixo do meu teto fazes as coisas à minha maneira!" - mas temos que fazer e ponto final. Resmunguei contra muitas coisas que agora até faço em minha casa, porque realmente fazem sentido, mas outras aboli por completo, preferindo utilizar outros métodos para chegar ao mesmo fim. É a beleza de se ter casa própria: podemos fazer o que quisermos. 

Não tenho dia fixo para limpeza. Cá em casa fazemos a limpeza quando dá, não importa que dia é ou que horas são. Já dei por mim a limpar o pó às dez da noite. Ou a varrer logo às sete da manhã. Desde que a casa esteja limpa e arrumada nada mais importa.

Fazer a cama mal nos levantamos.
Este acabou por ser abolido porque na maioria dos dias eu saía de casa antes do David acordar e ele acabava por não fazer a cama, apesar de eu o chatear diariamente. Então acabei por decidir - quando estou em casa - deixar a cama respirar algum tempo e só a meio da manhã a faço. O que não consigo é deixar a cama todo o dia por fazer... Só consigo imaginar o pó a agarrar-se aos lençóis.

Não há armário dos doces na sala. Não sei se ainda é algo que se faça mas na minha família havia uma parte do armário da sala destinado aos doces. Rebuçados, bolachas "especiais", gomas... Cá em casa evito ter doces num geral e mesmo que quisesse não tinha espaço porque optei por móveis bastante minimalistas, visto a sala ser minúscula. Tenho um único pote de rebuçados (que já devem estar estragados) e uma caixa com bolachas Maria num armário da cozinha.

Fazer sempre refeição de peixe ao almoço de domingo. Como eu odiava esta rotina... Nunca fui fã de domingos, por trazerem o final do descanso, mas piorava bastante ter que levar com peixe. Pior ainda se fosse cozido. Era o desânimo total. Cá por casa não há dias específicos para nada. Comemos o que nos apetece quando nos apetece. Às vezes só janto uma taça de cereais. Tudo depende do apetite que temos.

Deixar as portas dos quartos fechadas. Este pormenor foi abolido por pedido do David. Ele adora ter as portas todas abertas e eu acabei por dar o braço a torcer. Mas é sempre engraçado quando os meus pais vêm a minha casa porque encostam as portas todas e dão com ele em doido.

Não há cá passar a ferro. Só passo roupa que precise mesmo porque de resto basta um jeitinho quando apanho e deixar bem arrumada. Sempre me fez confusão o facto da minha mãe passar horas em pé de volta da roupa para ao fim de 5 minutos de uso estar tudo amarrotado. Passo camisas e pouco mais. E vivo feliz com a minha escolha.

E desse lado... Que hábitos aboliram / vão abolir?

quinta-feira, novembro 1

: Um enorme fosso entre gerações.


Às vezes digo - meio na brincadeira - que nasci na última boa geração. Sou da década de 90 e tive a felicidade de ter uma infância livre de aparelhos tecnológicos e onde a internet era cara como burro (para além de se ter que desligar o telefone para ela funcionar), daí quase ninguém a usar. Na adolescência acabei por criar conta no velhinho Hi5 e no MSN - quem se lembra? - mas era tudo tão controlado que nunca tive espaço para inventar parvoíces. O total oposto das gerações dos últimos anos que saem do útero da mãe com um smartphone nas mãos e que sabem hackear sites mas não sabem pegar num lápis. 

Tendo em conta a proximidade do meu local de trabalho a uma escola básica/secundária cruzo-me diariamente com adolescentes que me fazem questionar o que se passa com estas gerações. Falam sempre aos gritos e não me lembro de ter amigos que falassem sempre assim tão alto. Insultam-se como quem chama nomes carinhosos. Andam sempre de telemóvel na mão numa luta constante para ver quem tem mais likes. Intitulam-se de "influencers" só porque está na moda e porque é fixe fingir que se muda a vida de alguém, quando na verdade nem a vida deles conseguem perceber. Vivem sedentos de experiências e sinto que querem viver a vida toda em poucos meses. São apressados, inconsequentes. Querem liberdade cedo demais e os pais vão compactuando com estes voos prematuros, temerosos que os filhos deles sejam deixados de parte. Talvez seja eu a retrógrada mas não concordo que crianças de doze/treze anos vão, por exemplo, à praia sozinhos. Ou crianças de quinze/dezasseis anos - sim, crianças!! - fiquem até de madrugada numa discoteca. Tem tudo para correr mal.

Claro está que não são todos assim - não quero generalizar - e também sei que na minha geração havia almas penadas que faziam escolhas duvidosas que marcaram pela negativa a forma como os mais velhos nos viam. Felizmente ainda existem jovens discretos, que pouco se importam com aquilo que a carneirada segue. Ainda há jovens que fazem a diferença e que marcam a sua posição da melhor forma. Sem gritos, sem uma doença por likes, sem insultos, sem comentário ocos. 
Mas as diferenças que encontro diariamente são tantas que só aumentam o fosso entre gerações e fazem-me sentir velha. Fazem-me questionar o futuro. E fazem-me refletir no tipo de mãe que quero ser. Vou claramente ser uma desmancha prazeres. 

Quando os vários grupinhos - onde muitos deles parecem bem mais velhos do que eu - se afastam e as vozes se dispersam no ar acabo sempre a fazer-me a mesma pergunta: Eu era assim tão parva?

terça-feira, outubro 30

: Hoje apeteceu-me escrever-te.


Ultimamente tenho-me lembrado muito de ti. Não que alguma vez te vá esquecer verdadeiramente - isso é impossível - mas há dias em que a vida passa tão rápido que não tenho tempo para deixar a mente divagar. Mas nestas últimas semanas tenho passado pela tua casa e não consigo evitar olhar para as janelas de onde tantas vezes me acenaste. O terceiro direito de um prédio tão antigo quanto eu. Olho para lá e quase te consigo ver à janela, para me veres caminhar na rua. Olho para lá e quase consigo ouvir a tua voz, sempre tão doce e tranquila. Quase te consigo sentir, num abraço que sabia a lar. As persianas, agora sempre fechadas, resguardam memórias. As nossas memórias... Protegem-nas de olhares indevidos, que não saberiam apreciar tudo aquilo que conquistámos. Aquelas persianas, agora sempre fechadas, guardam o melhor de nós. Gosto de imaginar que lá dentro - nessa casa que conheço de olhos fechados - está tudo na mesma, tal e qual como no último dia em que te abracei. Gosto de imaginar que aquelas paredes têm gravadas os nossos melhores momentos, aqueles que recordo com uma ponta de nostalgia, por saber que nunca os poderei voltar a viver. Não de forma palpável. Aquela será sempre a casa onde parte de mim cresceu e onde parte de mim ficou, no dia em que partiste. Aquela será sempre a casa onde perdia horas a olhar para o rio que sempre me acalmou e de onde ouvia a sirene dos bombeiros de forma tão clara que por vezes julgava estar no quartel. Será sempre a casa de uma das pessoas mais especiais da minha vida. E por muitas saudades que tenha, irei olhar para ela sempre com um carinho especial. Porque sei que estarás lá, de expressão calma e feliz, para me abrir a porta. 


#off the records
#histórias de bolso

domingo, outubro 28

: Música para os meus ouvidos | La Bohème


Há quem rejeite logo à partida músicas em línguas que não entenda na perfeição. Não é o meu caso. Para mim basta que a melodia me fale ao coração. Apesar de já não entender francês como entendia há uns anos apaixonei-me de imediato por esta música, por esta voz maravilhosa. Fechem os olhos e deixem-se embalar nestes três minutos mágicos!

sexta-feira, outubro 26

: Não sei se estou pronta para ser mãe.


É uma afirmação forte, eu sei, principalmente quando sou Educadora. Mas é mesmo por ser Educadora que digo estas palavras de forma pensada e segura. Não sei se estou pronta para ser mãe. Cuidar de filhos que não são meus faz-me perceber tudo aquilo que terei que enfrentar. Faz-me perceber que estilo de mãe virei a ser. 

Não sei se estou preparada para ter o coração a bater fora do peito. Para deixar de dormir, culpa das preocupações que não posso controlar mas que vão assolar a mente. Para enfrentar dilemas que agora observo de longe e que me deixam dividida. Não sei se estou pronta para ouvir o choro de um filho meu, mesmo sabendo toda a teoria e tudo o que fazer. Não sei, simplesmente, se estou pronta. Pronta para o ver crescer, para o ver querer abrir as asas e voar. Para deixar de o poder proteger dos males do mundo. Estou a sofrer por antecipação bem sei mas a verdade é que ter um filho é nunca mais sermos só nós. É termos um pedaço de nós a enfrentar um mundo que sabemos à partida pode ser cruel. É não podermos evitar que sofram. É apenas poder remediar as dores, dar um abraço apertado para afastar pesadelos. 

Quando estou com os bebés dou comigo a pensar que talvez não esteja preparada para ser mãe. Mas a bem da verdade... Será que algum dia estarei verdadeiramente? Como em tudo na vida terei que arriscar e viver a maternidade como vivo tudo o resto: um dia de cada vez. A aproveitar ao máximo porque só assim valerá a pena. 

quarta-feira, outubro 24

: Demora muito a chegar Março?


Uma das músicas que mais quero ouvir.


É oficial... Em Março estarei sentadinha no Coliseu de Lisboa a ouvir a brilhante Carolina Deslandes. Assim que soube que ela iria atuar nos Coliseus comprei o meu bilhete e estou mais do que ansiosa por ouvi-la cantar. Vai ser uma noite mágica!


Para ouvirem o seu álbum mais recente - Casa - basta carregarem aqui.

segunda-feira, outubro 22

: Mistérios da Humanidade [2]


Não sei se serei a única mas a verdade é que adoro estender roupa. E, inconscientemente, dou por mim a observar as outras roupas estendidas e a comparar os métodos utilizados. Pessoalmente ponho a roupa de maneira a que ela fique o menos amarrotada possível e sou aquela pessoa chata que sacode a roupa antes de a pôr no arame. Logo no início procurei agilizar o trabalho e encontrei técnicas para poupar espaço e tempo. Uma delas é emparelhar as meias no arame. Faço logo os pares e estendo-os juntos. Assim quando apanho é só enrolar as meias juntas e arrumar na gaveta. Talvez por isso me faça confusão - dramas de primeiro mundo - quem se dá ao trabalho de estender as meias todas separadas e misturadas. Para além de ocupar o estendal todo ainda dá uma trabalheira desgraçada. Eu cá prefiro simplificar ao máximo. 

Contem-me... Também usam algum truque ao estender a roupa? 

sábado, outubro 20

: A forma como me vejo.

Foto presente no meu instagram.

As minhas palavras podem parecer-vos estranhas mas a verdade é que, fisicamente, me vejo de uma forma muito específica e que, acredito, seja diferente da forma como cada um que me rodeia me vê. Estou farta de saber que tenho excesso de peso - é uma realidade que o meu joelho esquerdo não me permite esquecer - mas quando me vejo ao espelho sinto sempre que não estou assim tão gorda. Sinto sempre que até não estou mal de todo e que talvez até seja minimamente equilibrada. Tento não criar macaquinhos e desvalorizo sempre que usam a palavra gorda para me caraterizar. Limito-me a dizer que sou mais do que magreza ou gordura. Tudo isso cai por terra quando tiro uma foto e de repente está lá uma rapariga que não conheço de lado algum. Mas quem é aquela rapariga bolachuda e que de repente ficou com umas costas tão largas? Ou que parece sempre o dobro do tamanho de quem a rodeia? Nessas alturas questiono-me sempre se é assim que os outros me vêem. Se realmente sou assim e estou simplesmente a ignorar o óbvio. Sei que tudo depende de ângulos e das poses mas como pode ser a diferença tão abismal? E isso, por muito que não queira, deixa-me a pensar... Penso naquilo que estou a fazer ao meu corpo, à minha saúde. Penso em todos os problemas que tenho e que ainda posso vir a ter. Lembro-me do raio do joelho que me dói e que me limita. Lembro-me dos tornozelos que não aguentam atividades de alto impacto. 

Recomecei há poucos dias a minha reeducação alimentar e deixei-me de preguiças. Faço sopas só para mim e é o meu jantar diário. Reduzi nas doses que comia. Troquei alimentos. Por mim e para mim. Para que a rapariga que vejo no espelho seja também a rapariga que aparece nas fotografias. Para que seja a rapariga que todos vêem. 

quinta-feira, outubro 18

: Home Cinema | A fábrica de nada.

Ano de Lançamento: 2017

Sinopse: Esta é a história de um grupo de operários que tenta salvaguardar os seus postos de trabalho e evitar o encerramento de uma fábrica através de um sistema de autogestão colectiva. Quando se apercebem que a administração está a roubar máquinas e matérias-primas, os trabalhadores decidem organizar-se para impedir o deslocamento da produção. Como forma de retaliação, enquanto decorrem as negociações para os despedimentos, os patrões obrigam-nos a permanecer nos seus postos, sem nada que fazer.

Os meus pais já me tinham falado neste filme mas acabei por ir adiando vê-lo, principalmente porque é raro encontrar filmes portugueses online. Ou pelo menos com uma boa qualidade de imagem. Eis que ele surge na programação do TvCine 2, na passada terça-feira. Foi a oportunidade ideal. Ganha logo pontos só pelo facto de ser um filme português, premiado em dois festivais de cinema (Cannes e Munique), o que prova que não é só o cinema internacional que vence no estrangeiro. Mas conquistou o meu coração por representar a realidade que aconteceu numa unidade fabril da minha cidade. As gravações foram realizadas na cidade onde vivo desde que nasci, facto que me encheu de orgulho e que me dá uma sensação de nostalgia. A história retratada foi construída de forma bastante realista e podemos ver tudo aquilo que aconteceu, há tantos anos atrás, num tempo em que eu ainda não era nascida. Podemos ver a forma como os operários se uniram e tudo aquilo que conseguiram conquistar. Podemos ver como o passado e o presente se unem de forma tão forte, sendo este um acontecimento transversal ao futuro que tantas fábricas poderão atravessar. É um filme com bastantes altos e baixos mas que vale a pena pelo facto de ser nacional. Peguem num balde de pipocas, puxem para trás na linha do tempo e conheçam um bocadinho mais da minha cidade!

terça-feira, outubro 16

domingo, outubro 14

: Aos eternos insastifeitos como eu.



Bem que podia aparecer o sol. Bem que podia começar a chover. Estou farta deste calor. Estou farta do frio. Não me apetece estar em casa mas também não me apetece sair. Apetece-me um doce. Não, não posso comer doces. Vou pela direita. Não, vou pela esquerda. Quero ficar sozinha. Afinal quero companhia. Ai, que cansaço.

Quem nunca passou por isto? Por esta dualidade de sentimentos que mudam ao ritmo alucinante de meros segundos. Todos os sábados é uma tortura sair de casa para fazer uma hora de caminho até à aula de violino. Mas depois não me apetece vir embora. Todas as semanas anseio pelo fim-de-semana mas depois ele chega e eu farto-me de não ter grande coisa para fazer. Sou insatisfeita por natureza e há dias em que não me consigo compreender. Ainda assim tento contrariar esta minha faceta e agarro-me às pequenas coisas. Às vezes abrando o tempo e deixo-me ficar deitada no sofá a ver as cortinas abanarem ao vento. Vejo um episódio de uma série qualquer que esteja a dar na televisão. Deixo-me adormecer com o cachorro encostado a mim. Envio uma mensagem que estava pendente há muito tempo. Tenho vindo a aprender a olhar menos para o futuro e a aproveitar aquilo que o presente me oferece. Vou tentando deixar de viver preocupada com tudo o que pode acontecer e limito-me a procurar a felicidade, onde quer que ela esteja escondida. Faço aquilo que me dá vontade, quando me dá vontade. E aos poucos vou chegando à estabilidade que desejo.

sexta-feira, outubro 12

: Inversão de marcha.


O blogue está como a minha casa: arrumada por mera obrigação. Faço as limpezas semanais e finjo que não vejo aquele pó chato atrás do sofá pesado. Ou em cima do armário alto. Mantenho o básico feito e vou adiando as coisas difíceis e que me vão dar dores de cabeça. Assim anda este espaço. Apareço aqui de quando em vez, tentando disfarçar as minhas ausências, muitas delas prolongadas. Não sei se será falta de inspiração, falta de vontade ou se simplesmente já estou cá a mais. Mas como sou teimosa e ainda não estou pronta para desistir vou optar por vos pedir uma pequena ajuda. Digam-me o que gostariam de ler da minha parte, o que gostariam de saber. Estou a precisar de novos desafios! E serão vocês a lançá-los. Conto convosco.

quarta-feira, outubro 10

: O futuro que nunca será nosso.


Tínhamos tantos planos, tantos sonhos. Muitos deles eram loucos mas acreditávamos que os alcançaríamos a todos. Um por um. Todos os dias, ao acordar, seguravas na minha mão. Não eram precisas palavras para eu saber que ali estavas. E eu sentia-me segura nesta bolha que tínhamos criado. Até ao dia em que um vento forte, uma daquelas rajadas imprevisíveis, estourou a nossa bolha. Ficámos expostos ao mundo e o nosso amor foi secando, agredido por tudo aquilo que nunca tinha enfrentado. A nossa força não foi suficiente para lutar contra gigantes, fantasmas, monstros. Caímos por terra, acabados. Vencidos. Agora se nos cruzamos lançamos um sorriso desgosto, de quem sabe que se perdeu. Já não há sonhos. Já não há promessas. Já não há mãos dadas pela manhã, antes do sol nascer. Não há nada a fazer, meu amor. O que morre nunca mais volta. E nós morremos num passado que nunca mais voltará a ser presente. Ou futuro. Renascemos sozinhos, numa nova vida.


#histórias de bolso
#off the records 

segunda-feira, outubro 8

: Descobrir quem sou.


Sempre fui a pessoa que todos queriam que fosse, anulando-me vezes sem conta. Boa filha, boa aluna, boa amiga, boa namorada. Aplicada, focada, exigente... Não queria menos do que a perfeição. Pensava ter acertado em tudo à primeira. No curso que acabei facilmente, no romance que vivia desde a adolescência. Tudo fazia sentido e tudo se encaixava, sem qualquer dificuldade. Demos todos os passos que esperavam de nós: arranjámos trabalho, arranjámos casa, casámos. Era uma vida calma, talvez um pouco aborrecida, mas segura. Sabia bem tudo o que viria a seguir e não me importava. E agora vejo-me encurralada nestas escolhas. Um perfeito desconhecido entrou na minha vida para a virar do avesso. Para me fazer questionar se optei pelo caminho certo. Surgiu do nevoeiro para me fazer sentir a vida como nunca antes tinha sentido. É inteligente, interessante, imprevisível. E isso assusta-me. E cativa-me. De um lado tenho uma relação segura, com tantos anos que já nem me lembro de existir sem ela. Do outro uma não-relação que nem sequer sei se tem pernas para andar. Pela primeira vez na minha vida não sei que caminho irei percorrer. Não sei quem sou e tenho medo de descobrir. Pé direito ou pé esquerdo? Por onde começar?

#off the records
#histórias de bolso

sábado, outubro 6

: Somos uma só.

Fotografia própria 

As notas alinham-se de forma especial e ao serem tocadas a magia acontece. A música aparece e cria emoções que cada um explica à sua maneira. Que somos incapazes de descrever por ser algo tão único. Descobrir uma nova música, enquanto instrumentista, é experimentar novas passagens, novos ritmos. É poder libertar sentimentos de uma forma privilegiada. Há quem se surpreenda com a rapidez com que decifro as notas mas para mim, como digo sempre, é como ler um livro. É algo inato e que nunca esquecerei, mesmo que fique anos sem olhar para uma partitura. Faz parte de mim e só existo em conjunto com a música. Nasci para ela. E com ela viverei, sempre. 

quinta-feira, outubro 4

: A descobrir um novo mundo!



Não posso negar que adoro estar no berçário. Já ultrapassei a fase de adaptação - a minha e a deles! - e agora sinto-me preparada para enfrentar todos os desafios e para ajudá-los a ser o mais felizes possível. Mas há momentos em que sinto saudades do meu grupo antigo. Não só pela questão da ligação que tínhamos - e que continuará sempre a existir - mas também por pequenos pormenores que nunca me passaram sequer pela cabeça. Tenho saudades de poder usar o cabelo solto. Ou, melhor, de poder escolher como quero o cabelo. Agora se ele não estiver preso vai acabar entrelaçado nas mãos de algum bebé ou vai fazer-me suar em bica. Tenho saudades de acabar o dia com a roupa limpa. Hoje em dia é raro não descobrir manchas de papa, sopa, fruta. Ou, nos piores dias, manchas das três coisas misturadas. Já cheguei ao ponto de levar roupa lavada para vestir para uma consulta, por saber que a roupa que tinha não ia ficar em condições. Preferia não ficar com os braços cheios de baba mas como negar beijinhos dados com tanto carinho? Descobri que sou capaz de ficar com os braços cheios de sopa e, ainda assim, não sentir necessidade de me desinfetar logo a seguir. Redescobri o poder da música e abuso dela todos os dias, a toda a hora. Seja para brincar com eles, para acalmar um choro, para conseguir dar aquela colher de comida, para adormecê-los. É tudo uma ginástica digna de jogos olímpicos!

Tenho saudades de milhares de coisas mas agora tenho abraços apertados, cabeças encostadas no meu pescoço, beliscões carinhosos - que doem como o raio - sorrisos malandros, olhos que nos seguem como falcões. Já lhes conheço hábitos, manhas, gostos, choros. Já sei o que precisam, quando e como. Agora sei que não troco isso por nada. Sou uma educadora babada. Uma educadora feliz. E um dia vou ter saudades de tudo isto. Adeus, vou aproveitar!

terça-feira, outubro 2

: O que me fazes sentir.


Quando, naquela manhã, saltei para cima da minha bicicleta ferrujenta, senti que subia ao topo do mundo. Era um dia normal, tão banal como tantos outros. Saí de casa à pressa e nem sequer me lembro de ter penteado o cabelo. Com os meus ténis favoritos calçados pedalei ao longo de ruas e ruelas. O vento frio revolvia as minhas madeixas claras e pensei de imediato que mesmo que não tivesse penteado o cabelo já ninguém iria reparar. Sorri, abertamente, sem destinatário escolhido. Sorri ao mundo, às janelas que se abriam, às pessoas que caminhavam apressadas. Se alguém me viu fazê-lo não sei, mas talvez me tenha achado estranha. E sou, digo-o sem medos. Danço na rua quando oiço as músicas que gosto. Faço equilíbrio nos muros como sempre fiz desde criança. Calço sapatos de cores que ninguém escolheria. E ainda ando na mesma bicicleta que já tinha sido do meu pai. Há quem diga que fiquei presa na infância, que nunca cresci. Eu digo que aproveito a vida como muitos não o fazem. Tinha as bochechas rosadas do frio quando cheguei ao meu destino. Tu. Estavas à porta, de braços cruzados, num fato impecável que contrastava com o meu fato de treino e com os meus cabelos emaranhados. Abraçaste-me, ignorando quem passava. Quando te vejo esqueço tudo o que sussurram sobre mim e quase consigo ver-me através dos teus olhos. O calor do teu aconchego faz-me esquecer que é inverno, faz-me sentir a primavera brotar no meu coração. Estás linda, dizes-me num suspiro. E é só da tua opinião que preciso. Contigo, sou feliz.

#off the records
#histórias de bolso

domingo, setembro 30

: Os malucos que eu tenho que aturar.


Passear o Floki é uma verdadeira aventura e já disse várias vezes que tenho ímane para atrair as pessoas mais estranhas que moram nas redondezas. Já me cruzei, por exemplo, com um miúdo que se atirou para o meio da estrada com medo do meu cão, o que foi despropositado porque ele estava preso - como sempre - e bem longe dele. O mesmo aconteceu com um homem adulto que só não teve um ataque cardíaco porque não calhou. Eu respeito que tenham medo - eu também tenho algum respeito a algumas raças - mas não é preciso tanto dramatismo como às vezes vejo. O Floki não se chega a ninguém a menos que eu veja que há uma clara vontade da pessoa em interagir com ele. Anda junto a mim e dou sempre passagem para que não fiquemos todos apertados sem espaço de fuga. Ainda assim há quem faça figuras estranhas e corra, não vá o diabo tecê-las. E eu digo sempre ao cão que qualquer dia vamos presos, tal é o perigo que ele representa. Ele normalmente responde-me com um ronco...

Não há dia em que não me cruze com pessoas que adoram "chamar" o cachorro para logo a seguir lhe virarem costas e quem fica com a tarefa de acalmar o pequeno diabo sou eu. Já ouvi que o meu cão tinha cara de mau - opiniões não se discutem - e que esta raça costuma morder muito. Não sei que cães conheceram mas o meu nem se sabe defender de ataques alheios, quanto mais! A respiração é sempre algo comentado e já me cansei de explicar que eles respiram assim, que ele não está a morrer. Que está simplesmente a eliminar a transpiração ou que está excitado com a brincadeira. Estou cansada de explicar que não, ele não está a rosnar. Aliás, se ouvi o meu cão ladrar dez vezes nestes quase dois anos foi muito. Pareço um disco riscado e até já evito olhar para as pessoas, não vão elas pensar que eu estou com vontade de conversar.

A cereja em cima do bolo é existirem pessoas que ficam genuinamente chocadas quando digo que vou castrar o Floki sem fazer ninhada nenhuma. Como se já não existissem muitos cães no nosso país... Ou como se ter uma ninhada fosse semelhante a fazer uma refeição. Enfim.

A verdade é que, apesar do sono com que fico, adoro ir à rua de manhã bem cedo. Não me cruzo com ninguém estúpido e não tenho que estar sempre preocupada se vai aparecer um cão solto para me atazanar o juízo. Posso aproveitar para brincar com o Floki e deixá-lo ser cão. Deixo-vos só uma pequena amostra da faceta birrenta deste pequeno gremlin!


Por ele estava o tempo todo nisto!

sexta-feira, setembro 28

: O corpo é meu!


Às vezes penso como será o futuro. Imagino um mundo onde é fácil viver e onde tudo tem finalmente sentido. Onde podemos ser nós próprios, sem medos. Onde, sejamos quem formos, podemos andar na rua de forma segura. Sem ter que olhar por cima do ombro a cada dois passos. Perco-me nestas ideias, tentando esquecer que os contos de fadas não existem. Que o mundo não é um lugar sempre simpático. Que ainda há quem viva preso a mentalidades do passado. 

Durante estes devaneios lembro-me que gostava de ter uma menina e, inevitavelmente, penso nos desafios que ela terá que ultrapassar se a sociedade não mudar. Nas barreiras que ela terá que derrubar. Penso em todos os medos que poderá ter. E da forma como terei que os desconstruir. 

Gostava que ela nascesse no seio de uma sociedade onde não tivesse que se impôr para que fosse respeitada. Porque a verdade é que todos os dias várias mulheres (e homens) vêem os seus corpos agredidos. Porque todos os dias um "não" é ignorado e a vida de alguém é destruída. Pouco importa se quem abusa acabou de nos ver ou se vive connosco há vinte anos. O respeito por terceiros deveria ser algo transversal. 

Imagino discursos em que lhe digo que o corpo lhe pertence apenas a ela e que só ela pode decidir o que faz com ele. Que um não é um não. Que a sua voz tem de ser ouvida, custe o que custar. Que um apalpão não é engraçado caso não é desejado. Que um beijo roubado nem sempre é romântico. Que a invasão do nosso espaço pessoal não deve ser algo banal. 

Divago horas a fio e perco-me numa torrente de ideias emaranhadas. Gostava de ter uma menina, apesar de saber todas as preocupações que vou ter. E depois lembro-me que as chances estão 50/50 e que também posso ter um menino. E nesse momento convenço-me que, aconteça o que acontecer, tenho que educar para a cidadania. Há que respeitar para exigir respeito.

Porque no nosso corpo somos nós que mandamos. E não há ninguém que possa alterar isso.